Silêncio confortável

Cada centímetro desse quarto me lembra você. Os lençóis da minha cama ainda têm o seu cheiro, e meu travesseiro ainda está úmido por causa do seu suor. Há marcas de lubrificante na porta, elas têm o formato das suas mãos, e isso me faz lembrar do sexo com você.

No nosso primeiro encontro você disse que era só uma “trepada”, que nada rolaria entre nós. No segundo você dormiu aqui, abraçado comigo. O terceiro nem rolou, porque você ficou meses. Disse que iria embora assim que achasse um lugar, mas fez do meu quarto o seu lar. Até trouxe sua escova de dentes e a colocou ao lado da minha

“Assim elas se beijam o dia todo, como nós”, você disse.

Por meses eu fui seu brinquedo sexual. Você tirava minha roupa sempre que queria e usava meu corpo para aliviar seus desejos. As manchas de lubrificante na porta, aquelas com o formato das suas mãos, não me deixam mentir; eu te comi umas cem vezes ali. Mas aí você percebeu que eu não era só uma trepada. Eu era um brinquedo sexual, um aquecedor para seus pés frios, um companheiro de ressaca, o par romântico para festas, alguém que te protegia e zelava pelo seu bem estar, alguém que te acordava com beijos e mau hálito todos os dias e até um namorado falso para “espantar os caras feios”, menos uma trepada.

E aí você fugiu.

De repente você encontrou o lugar. De repente sua escova de dentes sumiu, e suas cuecas não estavam mais espalhadas pelo quarto. De repente eu me tornei menos que uma trepada. Tentei te ligar, mas você não atendeu. Depois de alguns dias você me mandou uma mensagem pedindo desculpas e dizendo que você precisava ficar na sua. Que o seu silêncio era necessário; era um silêncio confortável.

E aí eu decidi esperar você quebrar o silêncio.

Hoje eu acordei sozinho ao meio dia, o sono desregulado me fez sentir mais cansado do que deveria, mas eu só me preocupei em saber onde você estava. Caí no sono e acordei às três da tarde, meu corpo não vai aguentar isso por muito tempo, esse dorme e acorda, tentando fazer o tempo passar mais rápido pra ver se você volta.

Estou começando a achar que esse “silêncio confortável” é muito superestimado.

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Estilo de vida Textos

Henrique Satt Visualizar tudo →

21 anos de idade, apaixonado por literatura, fotografia e pela natureza.

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