Positividade

Era uma tarde de inverno, se me lembro bem, e estávamos todos tomando café num Coffee Shop próximo a Oxford Library enquanto debatíamos a rejeição do realismo literário. Tardes de inverno com café são o cenário perfeito para a minha melancolia, até onde eu pude notar, mas eu estava empenhado em passar aquela tarde sem a sombra negra e dramática de minha velha amiga atrapalhar o meu livro — uma leitura comparável à tortura, devo dizer, mas era alegre, e todo mundo sabe que livros alegres e positivos são tão ruins que fazem doenças mentais serem preferíveis à ler tais baboseiras.

Minha leitura irritante era essencial para me fazer acreditar que eu não era tão ruim assim. Essas pessoas positivas, que se embebedam com a crença de que estão em paz, enganando-se com a ideia de que não poderiam estar melhor, são tão engraçadas. Ler sobre elas me faz rir; me faz pensar em quando aquela garota me pegou traindo a irmã dela com outro homem. Ela estava tão calma e positiva, tão inspirada por seu autocontrole e sua paz interior que imediatamente ligou para a irmã para contar o que havia acontecido. Ela não estava em paz, ela estava com ódio. Mas a parte interessante era que ela não sabia que eu já tinha terminado com a sua irmã há meses.

Ela sentiu ódio por mim, e por sua própria irmã que evitou contar para pessoas desnecessárias a respeito do nosso término. Foi engraçado como a paz interior dela e toda a sua positividade desapareceram ao sentir-se desnecessária. Eu me sinto assim todos os dias e não lembro de uma vez em que fui rude com alguém no telefone.

Paz é uma luz forte demais para se olhar direto para ela, e quanto mais você tentar, mais danificara sua capacidade de enxergar, até que você não possa mais ver luz alguma. É como encarar o sol do meio dia em um verão dos mais quentes.

Mergulhado em meus pensamentos e lembranças a respeito dessas pessoas irritantes, percebo que o silêncio repentino significava que fui deixado sozinho naquele café enquanto pensava nisso tudo. Minha leitura irritante não era mais necessária, não havia mais necessidade de ficar sorrindo como se eu fosse uma pessoa alegre, quando na verdade estou rindo das baboseiras que esses livros positivos carregam em suas páginas.

Fecho meu livro ruim e sigo meu caminho para casa.

Estilo de vida Textos

Henrique Satt Visualizar tudo →

21 anos de idade, apaixonado por literatura, fotografia e pela natureza.

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