O tempo

Soprei o pó que há meses estava acumulado sobre o teclado do meu computador e me sentei, regulando a cadeira logo em seguida — eu não me lembro por que a deixei tão alta. Fechei meus olhos e tentei pensar em algo que me inspira-se. Tentei imaginar um campo florido, ou uma floresta às três da tarde. Dormir na grama depois do almoço, ou mergulhar no lago num dia quente. Nada disso pareceu funcionar. Nada.

Me levantei e fechei o computador simultaneamente. Com alguns passos alcancei a minha cama onde me deitei e permaneci por horas. Chorei, cochilei, acordei me sentindo vazio e sem sentido, me levantei e abri novamente o computador. Soprei a poeira do teclado, mesmo que já tivesse feito isso algumas horas atrás — é como um ritual para mim — e digitei:

“O que está acontecendo?”

Imediatamente me lembrei o porquê de ter deixado a cadeira tão alta. Foi para alcançar o álbum de fotos que escondi atrás dos livros de história. Livros pesados e grossos. Livros que ninguém julgaria interessantes o suficiente para se dar ao trabalho de retira-los da prateleira. Agarrei o puxador da primeira gaveta do móvel a esquerda da minha escrivaninha e o puxei, revelando o álbum de fotos. Me lembro de tê-lo tirado de trás dos livros num momento de nostalgia.

Sem mover o álbum de lugar, folheei o mesmo em busca de algo relevante. Algo inspirador. Um motivo para escrever. Algo que refletisse quem eu sou, ou o que eu sou, mas tudo o que encontrei foram fotografias de quem eu era, com pessoas e em lugares que hoje já não são mais os mesmos. Todos passamos pelo tempo e ele nos deixou marcados. Essas marcas mudaram nossas feições, nossas perspectivas e os traços de nossos jeitos e até mesmo de nossos rostos. Nossos corpos não eram mais os mesmos. Nada, naquele álbum ou nas milhares de fotos em meu celular, representa quem eu sou agora.

Por alguns segundos permaneci parado, encarando a tela do meu computador.

Alcancei o mouse, cliquei sobre a pergunta que havia digitado antes, e a respondi.

“O tempo”.

Textos

Henrique Satt Visualizar tudo →

21 anos de idade, apaixonado por literatura, fotografia e pela natureza.

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