A imagem no espelho

Foi em meados de junho do corrente ano quando notei a imagem no espelho. Era uma manhã abafada de verão e me lembro de olhar de relance para o espelho e notar a minha aparência cansada. Eu havia acabado de escovar os dentes e sequer pensara em checar minha aparência até então, mas o acidental encontro com imagem me fez parecer mais um adolescente narcisista. Naquela manhã passei mais tempo olhando para o espelho do que em qualquer outra na minha vida, encantado pela tristeza na imagem ali refletida. É engraçado como descobrimos coisas a respeito de nós mesmos de forma tão sutil e rotineira, como olhar para o espelho pela manhã e notar que há duas semanas você não faz a barba; perceber que seu cabelo está caindo mais de um lado do que do outro; que os seus olhos não brilham mais e que você não só se sente esgotado, mas aparenta também.

Observei a firme película de luz vinda da janela no telhado sobre o meu rosto desaparecer conforme as nuvens se moviam e me questionei o que havia acontecido. Conseguia enxergar alguém ali, mas jamais diria que aquele era eu, à vista disso, havia algo errado. Estranhamente sempre que tenho tal impressão estou certo. Apesar de todo o meu ceticismo, acredito muito na minha intuição e isso nunca me decepcionou, mesmo nas vezes que forcei relacionamentos abusivos com a impressão de que dariam certo. Isso não era inteiramente dependente de mim, então minha intuição não estava errada.

Odeio quando me pego numa onda de pensamentos aleatórios enquanto estou tentando descobrir algo. Penso no sono que estou sentindo, e então penso no som dos pássaros lá fora, acreditando que sejam pombos já que não há cantoria apenas o som de asas batendo. Repetidamente altero entre um pensamento e outro até chegar ao meu objetivo que naquele momento era descobrir o que havia de errado com a imagem no espelho.

Para se manter o foco em um assunto é preciso primeiro pensar no motivo para tal, isto posto, penso agora na tristeza que acompanhara a imagem que vi; na única escova de dentes dentro de um copo sobre a pia, como uma única e solitária flor posta em um grande jarro sobre a mesa de uma sala vazia; na película de luz que estava sobre meu rosto e agora atinge o extremo esquerdo da parede da pia. Penso na solidão que senti após acidentalmente cruzar meu olhar com o da imagem no espelho, e sinto por ela. Eu sinto muito. Entre sentir muito e fixar um assunto para manter o foco percebo que me perdi novamente numa onda de pensamentos aleatórios. “Eu não sou bom nisso”, penso comigo mesmo antes de deixar o banheiro.

Saio do banheiro,

caminho até a sala

e sento no sofá,

mas a imagem no espelho ainda me assombra.

Olho para meus sapatos e penso que não sinto vontade de calça-los. “Eu não sou bom nisso”, penso novamente antes de me forçar a colocar o pé direito dentro do sapato direito, e logo forçar o pé esquerdo dentro do calçado esquerdo. E a imagem no espelho permanece em minha cabeça enquanto amarro os cadarços. “Por que ela aparenta ser tão triste?”, me questiono continuadamente até terminar com os sapatos.

Me levanto,

caminho até o banheiro,

acendo a luz e encaro novamente aquela imagem.

Ele agora parece confuso, tanto quanto eu, talvez. Talvez ele também se perca em seus pensamentos, e consequentemente perca o sono, a fome, a vontade de sair e ver pessoas. Talvez ele tenha tanto para lidar quanto eu, dito isso, está justificada a sua aparência cansada. Mas por que está tão triste?

Solidão” ecoou pelo banheiro como se fosse um grito em um estádio vazio, respondendo minha pergunta.

“Eu entendo”, sussurrei, torcendo para que ninguém me ouvisse, “mesmo que eu tenha amigos, mesmo que eu tenha familiares, mesmo que eu tenha um namorado, eu ainda me sinto só. É horrível pensar que todas essas pessoas deveriam suprir uma necessidade tão básica quanto essa, mas elas não o fazem porque estão ocupadas sentindo a mesma coisa que eu. Eu sei, você precisa delas. Eu também preciso.”

“O que você faz para ficar bem?”, diz a imagem.

“Pare de se olhar no espelho”.

Textos

Henrique Satt Visualizar tudo →

21 anos de idade, apaixonado por literatura, fotografia e pela natureza.

1 comentário Deixe um comentário

Deixe uma resposta para Jackson Cancelar resposta

%d blogueiros gostam disto: