Eu acordei antes de todo mundo na manhã de natal

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Fora uma manhã quieta, como qualquer outra. Na sala, não se ouvia nada além do crepitar na lareira, embora a chama que nos aqueceu durante a noite há muito estivesse apagada. O silêncio no restante da casa denuncia o óbvio, algo que venho tentando mudar desde que era pequeno — eu acordei antes de todo mundo na manhã de natal.

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A manhã de natal sempre foi especial pra mim, mesmo que, como brasileiro e de família pobre, isso não significasse muito. Era feriado, todos estariam em casa, mas nada além disso. Sem a magia da família reunida para o café da manhã, sem os presentes e até mesmo sem as decorações — porque meus pais nunca se importaram em decorar a casa. Era uma manhã de feriado como qualquer outra do ano. Podendo ser confundida com o ano novo, se acontecesse de ouvir fogos de artifício em momentos aleatórios do dia, ou com a independência da república, se algum patriota maluco resolvesse fazer um churrasco e convidar a família inteira. O natal em casa era definitivamente só mais um dia comum.

Na minha cabeça, porém, sempre existiu uma magia diferente nessa data. Algo que eu não poderia explicar nem se conhecesse todas as palavras do dicionário. Me sentia mais disposto a tentar criar laços com meus familiares, mesmo nos demorados últimos anos da minha adolescência, quando tudo o que queria era distância de todos eles. Eu poderia passar o ano inteiro sem dar bom dia, ou dizer um simples olá, mas no natal, naquela data específica, uma boa conversa e algumas risadas entre eles eram essenciais. Lembro-me perfeitamente da última vez que passamos o natal juntos. Talvez naquele dia eu tenha finalmente entendido que a data em questão nunca foi e nem nunca será aquilo que, quando criança, resolvi acreditar ser.

seis anos antes

Acordei e logo decidi sair da cama, algo que eu não faria em um dia comum. Fui até a cozinha e abri a geladeira, para encontrar apenas sobras de churrasco deixadas para meu pai, que na noite anterior, enquanto todos comiam, resolveu apenas beber. “Isso é bem a cara do natal”, reclamei, fechando a porta da geladeira e olhando ao redor em seguida.A casa estava exatamente como em qualquer outro dia do ano. Sem luzes, sem árvore, sem familiares andando de um lado para o outro impedindo o silêncio de ganhar alguma vantagem. Por alguns instantes pude sentir que nem mesmo o amor se fazia presente.

Insisti em procurar algo que me lembrasse o motivo de gostar tanto daquela data, mas falhei miseravelmente. Não havia magia em nada ali, nem vontade, nem paixão, nem nada que tornasse a manhã de natal de alguma forma agradável. Fazendo com que não somente meu espírito natalino se encolhesse dentro de mim, mas também forçando uma sensação de arrependimento, amarga e insensível. Ela me dizia para voltar para debaixo dos lençóis. Que meu pai jogado em sua cama, bêbado, assim como minha mãe ao seu lado, decepcionada, eram parte da realidade que eu deveria aceitar, do verdadeiro significado do natal — é só mais um dia comum.

[…]

Hoje é natal, de novo. Pela manhã, quando acordei, nada além da madeira estourando e aos poucos se desfazendo depois de uma longa noite queimando podia ser ouvido. Ciente do que aquilo significava, fechei meus olhos e forcei a mim mesmo a desfrutar de mais algumas horas de sono; contudo, o ranger da pequena porta de vidro e metal da lareira despertou minha curiosidade, como de uma criança à espreita, esperando pelo Papai Noel. Ao abrir meus olhos, vi meu velho alimentando o fogo. Ele gosta disso. Sempre se anima quando está frio e ele pode enfim usar a suas habilidades de sobrevivência. “Feliz natal”, ele diz. Respondo com a mesma frase e me levanto do sofá onde passei a noite. Esfrego meus olhos para tirar os vestígios de sono, e separo um minuto para olhar em volta. Sobre a mesa na sala de jantar há pães e frios; café e leite, e até algumas outras guloseimas que nunca tive a oportunidade de provar. Nossa família reunida, e nosso cachorro os observando, esperando ansiosamente por um pedaço do que quer que estivessem comendo. “Tudo bem?”, me perguntam. “Sim”, respondo, e pela primeira vez, é a verdade. Continuo olhando ao redor, dando uma breve atenção a enorme árvore de natal no canto da sala, decorada apenas com luzes pois esquecemos de trazer os enfeites. É um pinheiro de verdade. Posso sentir o cheiro de madeira e folhas, como se estivesse em uma floresta. Eu gosto de florestas. Debaixo delas alguns presentes, não muitos, apenas lembranças que tivemos o cuidado de separar para lembrarmo-nos do amor e carinho que temos entre nós. É esse o natal, de agora em diante. Eu sou um adulto de vinte e poucos anos que finalmente pode deixar sua criança, ansiosa e com os olhos cheios de magia e fome por esperança, sair.

Volto minha atenção para eles, respiro fundo e sussurro, sem esperar que ouçam “Ainda bem. Eu só acordei antes de todo mundo na manhã de natal”.

Estilo de vida Textos

Henrique Satt Visualizar tudo →

21 anos de idade, apaixonado por literatura, fotografia e pela natureza.

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