A forma como celebramos o nosso amor

Há uma certa poesia na forma como fazemos isso.

Eu confio a você as partes mais íntimas do meu corpo e você faz o mesmo. Nos deitamos pelados um ao lado do outro, e sem as nossas roupas somos dois pobres coitados. Fracos. Magricelas. Ainda assim, desejamos nossos corpos mais do que qualquer outro no mundo. É esse o único momento em que nos tornamos os deuses gregos que inspiram nossas partes a se erguerem e dançar.

Tateamos nossas vulnerabilidades como se já não as conhecêssemos. Como se fossem terras novas — inexploradas. Usando meus dedos, faço pequenas caminhadas aos pontos que farão você se encolher. Procuro neles o lugar certo para começar a recitar nosso poema favorito, como se já não soubesse de cabeça onde é. No primeiro sinal de que cheguei ao meu destino alcanço-o com a língua, rapidamente. Não posso deixar que percamos o ritmo. Eu faço música com seu corpo. Cada toque, cada movimento produz um som diferente. Sons que logo farão com que nossos vizinhos batam nas paredes, mas quem se importa com eles? Nós não.

Com o núcleo da sua chama na ponta da língua é quase impossível permanecer de olhos abertos. Eu amo essa sensação. Eu amo a forma como você se fecha com meu rosto ainda ali. Eu amo a forma como seu corpo reage ao próprio combustível. Ainda assim, abro meus olhos para alcançar os seus. Eles brilham e me encaram com admiração. Você ama isso, e você quer mais. Mas encerro meu número logo em seguida para que você entre em cena, e você faz isso tão bem. Tão bem.

Para o grande final, nossas bocas se encontram. Sua respiração forte denuncia o que está por vir: o auge do nosso amor. O resultado de horas de poesia e música. Da fome por prazer que nos engolia vivos desde que arrancamos a última peça de roupa. O resultado da sinfonia que manteve nossos vizinhos acordados a noite inteira.

Você goza e eu escrevo minhas últimas palavras, em tinta branca, sobre seu corpo suado e vermelho.

Visto minhas roupas e vou embora.

Porque é assim que celebramos o nosso amor agora.

Poesias Textos

Henrique Satt Visualizar tudo →

21 anos de idade, apaixonado por literatura, fotografia e pela natureza.

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