Nossos dias contados

— Você precisa procurar ajuda, Henrique.

Ele diz. Ele não diz mais nada. Ele espera pelo adeus.

Foi em janeiro daquele mesmo ano quando previ esse dia, e em março tive a confirmação que precisava. Era uma questão de tempo até que tudo viesse à tona e tão iminente quanto a primavera que fez florescer um amor intenso em nós, veio o inverno, congelando e matando nossas folhas. Eu vi esse dia diante dos meus olhos, e pude tatear seus motivos e assim entender como tudo aconteceria, muito antes de descobrir os defeitos que, naturalmente, habitavam seu corpo e mente. 

“Então por que você não me ajuda? Por que você vai fugir, de novo, em vez de me ajudar?” 

Penso comigo mesmo, enquanto tento parar de chorar.

Mais cedo, naquele mesmo dia, ela me deu a notícia que tornou esse momento pior do que deveria. “Não foi dessa vez. De novo.”, ela disse. Ela foi mais sensível, embora eu soubesse o que realmente queria dizer. Ela me culpa por isso, mas não agora. Agora ela me poupa de mais dor, mantendo o silêncio confortável do qual tanto se orgulha, e me deixando à deriva. É a forma mais sensível de se vingar que existe. Ele, em contrapartida, aproveita o momento e:

 — Adeus, meu amor.

Ele alcança seu objetivo com maestria. 

— Adeus.

Eu aceito suas últimas palavras sem grande esforço. Era esse o momento pelo qual vivemos esse romance; era essa a palavra que nos foi dada para guardar e usá-la quando necessário.

[…]

Nos conhecemos por acaso, mantivemos contato por curiosidade, e nos apaixonamos de propósito. Não foi acidental, nem impensado. Sabíamos que algo estava diferente, e que aquela transa não foi apenas o que dissemos ser. Fora a fusão de dois mundos completamente diferentes. A união de nossos núcleos formando uma força gravitacional colossal — eram dois corpos tornando-se um só. 

Quando, em janeiro, minha mente se deixou levar pela dor de um luto há muito persistente e caiu em ruínas sobre a mesa de um bar, ele me deixou. Não disse muito, nem pouco. Apenas o necessário para se colocar do lado de fora da tempestade que se instalou em mim. Me coloquei de pé, sozinho, em pouco tempo. Era nítida a minha melhora, embora ainda instável. Então ele voltou. Aos poucos, como se voltasse para casa após fazer algo errado esperando pela bronca, mas pronto para se defender e dar meia volta.

Com o tempo senti que ele realmente estava de volta. Senti que a parte do meu mundo que ele roubou e fugiu fora colocada em seu lugar novamente, e isso me fez sentir melhor por algum tempo. O que também cooperou para que permanecesse me sentindo bem foram as drogas. Em março durante minhas aventuras em casa, mergulhei em um mundo fantasioso onde tudo estava bem desde que eu estivesse bêbado, e quando percebi isso e decidi parar, foi quando recebi a confirmação de que precisava — meu presságio estava correto. Eleestava bêbado, todo esse tempo. Ludibriado pela parte de mim que ainda estava inteira, negando a existência dos meus demônios. 

Praticamente nada em trinta dias foi desagradável. Éramos o casal mais feliz da cidade, e todos ao nosso redor enxergavam isso. Eu, por outro lado, temia que era por aquilo que eleestava apaixonado. Pela facilidade como tudo acontecia conosco. Pela leveza de se acordar encarando a pessoa amada. Almoçar juntos e dançar nas ruas, sem medo ou vergonha. Sem preocupações.

Nada que viesse entre isso, tampouco os custos de toda essa felicidade foram levados em consideração por ele. E o tempo não era nosso amigo.

Além disso, estar sempre bêbado me fez acreditar miseravelmente que minha saúde mental estava melhor que nunca, mas poucos dias sóbrio me mostraram a verdade: eu ainda estava machucado. Ainda sangrava e as marcas em meu corpo formavam os nomes deles. E ele estava tão feliz e tão leve que isso era irrelevante naquele momento. Tudo o que me importava era vê-lo sorrir e colocar esse peso em seus ombros pouco antes de partir acabaria com isso, então permaneci em silêncio por todo o resto dos nossos dias contados.

Eu escondi a minha dor e minhas feridas numa tentativa desesperada de não assusta-lo de novo. Fiz tudo para evitar o adeus iminente.

Então voltei para longe. Era o fim dos meus trinta dias com ele, e o começo da nossa longa despedida.

Com a distância e as incertezas que a saudade plantava diariamente em nossos corações, tive que me aperfeiçoar em guardar segredo sobre minhas feridas. Se ele as visse seria fatal; contudo, chegamos a um momento em que sua presença em minha vida tinha pouco significado. Era alguém que tomava muito de mim, e não estava pronto para nada além das triviais consequências da distância. Era contraprodutivo tê-lo comigo.

Então tentei minha última carta.

Deixei de lado seu histórico e lhe contei sobre meus demônios. Deixei que a luz em meus olhos se apagasse mais uma vez e que ele enxergasse a verdade. E em algum momento daquele último final de semana que passamos juntos eu entendi que não estava dando certo antes de contar a verdade a ele. Estávamos apenas cumprindo os nossos papeis numa história escrita em duas linhas:

” — Olá…

 — adeus.”.

Ele não precisava ser forte por mim. Não havia qualquer obrigação descansando sobre seus ombros, mas ele tentou. Ele me provou que realmente me amava negando a sua natureza fraca e medrosa e brigando contra meus demônios. Tremendo na base, mas confiante de que poderia aguentar a tempestade, por mim — por nós.

Por algum tempo pensei que ficaria tudo bem, no final das contas. Havia amor, de ambos os lados, e talvez isso fosse a chave para transformar meu presságio numa ideia sem fundamento, afinal, o sentimento era de que ele fosse apaixonado pela parte fácil de mim, não esta que agora era visível e pesada. 

Mas amor nunca foi suficiente, não é? Para absolutamente ninguém.

Ele não aguentou. No final das contas, era peso demais para seus ombros. Ele nunca enfrentou tantos problemas que não fossem dele, e talvez ele sequer tenha chegado perto de ter tantos. Nada em sua vida o preparou para alguém como eu, e tudo na minha me preparou para alguém como ele. Com isso, estávamos prontos para o adeus. Era hora de usá-lo, enfim.

“O controle que ele tem sobre você é nítido”ela disse, procurando por seu pedaço de razão.

“Vocês vão só fazer mal um ao outro se continuarem juntos”. Lari adicionou, se retirando amigavelmente do campo. Fazendo-se inocente. “Faz tempo que ele me diz que precisa te deixar. Sumir logo da sua vida.” .

[…]

— Adeus, meu amor — ele diz.

“Adeus” respondo aliviado sem que ele pudesse me ouvir.

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Henrique Satt Visualizar tudo →

21 anos de idade, apaixonado por literatura, fotografia e pela natureza.

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