O primeiro dia de sol

Eu estava descendo a rua quando o vi. Ele estava do outro lado, sorrindo pra mim. Camiseta vermelha, uma calça preta e tênis amarelos, exatamente como os meus.

Ele acenou dizendo ‘olá’. Sentou-se e fez da calçada um lugar confortável para uma conversa. Ele era desses que sempre se sentem em casa, ou que fazem de qualquer calçada ou banco de praça um ótimo lugar para se ter uma conversa longa e profunda.

Eu atravessei a rua e me sentei ao seu lado, olhei bem para seu rosto pra ter certeza de que estava prestes a conversar com a pessoa certa, e percebi que ele estava com a barba por fazer. Eu não me lembro dele assim.

“Quando a sua barba começou a crescer?” perguntei.

“Quando a sua começou” ele respondeu, tocando meu rosto para sentir minha barba.

“Entendo” disse me desviando da sua mão. “Eu contei para minha psicóloga que ainda vejo você. Que ainda sinto você. E ela disse que é normal, mas que queria mais detalhes. Então pediu que escrevesse, detalhadamente, caso eu te visse de novo”.

“Eu sei. E então, vai escrever?” ele perguntou, ainda sorrindo.

“Sim…” respondi. “Acho que ela está preocupada com isso. Eu devo estar enlouquecendo por sua causa”.

“Eu também acho” disse ele, parando de sorrir imediatamente.

“Então por que você não vai embora?” perguntei, nervoso. A última coisa que quero é que ele vá embora de vez.

“Porque você não quer” ele respondeu, voltando a sorrir.

Permanecemos quietos por algum tempo. O suficiente.

“Eu tenho que ir para a aula” disse me virando em sua direção “Você poderia…”

Não pude terminar. Ele havia ido embora. Consegui vê-lo no fim da rua, acenando um ‘até logo’ sem se virar para garantir que o vi. Desaparecendo logo em seguida.

“Até a próxima” sussurrei com a plena certeza de que ele havia me escutado.

Segui meu caminho para a aula pensativo. Eu sinto que estou chegando no quarto estágio: a depressão. Logo depois virá a aceitação, como o primeiro dia de sol após um longo e intenso inverno, e eu irei esquecer aos poucos como nós éramos próximos, e como sinto falta dele.

E eu não sei se quero ver o sol novamente.

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Henrique Satt Visualizar tudo →

21 anos de idade, apaixonado por literatura, fotografia e pela natureza.

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