The Blue Room

De todas as coisas que estavam sobre a escrivaninha posta no canto mais distante do quarto azul, pego apenas as cartas que escrevi na noite passada e meu passaporte. Antes de sair do quarto, olho para ele uma última vez. Para ter uma última imagem do lugar. Lembro de quando tinha treze anos e meu irmão casou-se com a irmã da segunda esposa do nosso tio. Quando digo que ele se casou com ela, quero dizer que eles passaram a morar juntos. Eles decidiram que era hora de começarem sua vida um com o outro, mas não deixaram o tempo resolver as coisas. Sendo assim, não tinham para onde ir e acabaram se mudando para o meu quarto. Encostaram minha cama na parede da janela, e então encostaram um guarda-roupas na minha cama, e daquele momento em diante aquele espaço retangular de pouco menos de um metro era meu quarto. 

Aprendi que para fixar bem uma data, ou um acontecimento, é necessário ter em mente o que se via. Lembro de ver a parede da casa da vizinha, construída quase que inteiramente com tijolos baianos, e que nunca foi devidamente rebocada. Restos da madeira usada para formar as colunas de cimento que mantém a construção em pé ainda presos à estrutura. Fios e passagens de fios nunca utilizadas. Uma firme película de luz atravessando o corredor estreito, mas ainda fundo, que dividia as duas casas. A janela de vidro, que mesmo sendo minha única fonte de ar e luz, estava sob total controle da esposa do meu irmão. Por isso, sempre fechada. Lembro dos pôsteres colados nas costas do guarda-roupas. A única decoração que podia ter em meu espaço. Consigo ver tudo isso em minha frente como se estivesse acontecendo agora.

Foi uma época carregada de lembranças ruins e com pouca privacidade. Pouca luz, e pouco ar. Tudo isso somado me fazia sonhar acordado com um espaço onde eu pudesse existir com dignidade. Onde existisse o mínimo respeito por aquilo que era meu por direito. Onde eu tivesse a liberdade de ir e vir. Lembro-me de sentar na janela para observar a cidade pelo vão no fim do corredor, e pensar em como seria a minha vida dez anos mais tarde. Aos 23 eu poderia ter minha própria casa, se quisesse. Talvez, muito antes disso, eu conseguisse ter meu próprio quarto. Com uma cama grande e um criado-mudo com um abajur sobre ele. Alguns livros que seriam substituídos toda semana, e uma garrafa com água que seria substituída todos os dias. Uma escrivaninha num canto próxima à janela, e uma estante com livros e objetos importantes para mim. Eu pensava nos quadros com fotos espalhadas por todo o quarto.

Hoje eu ajeitei as flores que comprei no supermercado no vaso que ganhei de um amigo como presente de casa nova. Troquei os lençóis, tirei o pó dos livros e lustrei a escrivaninha de madeira. Coloquei de volta no lugar os livros, o porta lápis, os quadros e o porta copos que está sempre no canto direito da escrivaninha. Quando tudo estava pronto, peguei meu passaporte e as cartas que escrevi para meus amigos. Está tudo pronto para ir, mas aqui estou eu. Preso em devaneio. Numa fantasia que tive ainda adolescente. Ainda me perguntando para onde todos aqueles sonhos foram.

Quando finalmente abri a porta para sair, pensei em meus motivos para fazer isso. Não havia um. Tudo o que eu sempre quis foi estar num lugar assim, feito para mim e por mim. E aqui estou eu, pronto para escolher um outro local como cenário para minha última história, sendo este o ideal. Então, fecho a porta e sigo até a escrivaninha. Abro a primeira gaveta no lado direito, puxo as cartelas de antidepressivos receitados para mim, e tiro um por um, até que todas elas estivessem vazias.

Na minha última consulta com o psiquiatra, consegui que ele me receitasse seis meses inteiros de medicamentos. Eu lhe convenci de que estaria viajando e não disporia de tempo para vir aqui para buscar mais remédios. Eu me convenci de que eu tomaria cada um deles, um por dia, por tanto tempo. Mas isso não vai acontecer. Estou cansado de me sentir doente. Então, há uma semana decidi que faria aquilo, e agora todas essas pílulas vão me ajudar a alcançar meu objetivo: descansar.

Uma por uma as coloco em minha boca e engulo. Tento não demorar muito, para que não façam efeito antes de terminar com todas elas. Em pouco tempo estou pronto. Deito em minha cama, feliz por ter escolhido meus melhores lençóis. Respiro fundo, fecho os olhos e tento cair no sono. Lentamente. Como num dia normal. Mas desta vez tendo certeza que quando acordar amanhã, tudo isso terá ido embora.

E eu também.

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Henrique Satt Visualizar tudo →

21 anos de idade, apaixonado por literatura, fotografia e pela natureza.

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