Aqueles que deixamos para trás

Sentir.

Isso resume grande parte do que é ser uma pessoa. Me pergunto se um outro animal, da espécie que for, pode ser mais propenso a sentir as coisas do que uma pessoa.

Quando fomos jogados para a depressão nos consumir, tudo o que aprendemos com aquilo foi o valor das pessoas que amamos. Embora, como tudo na vida, houvesse uma outra lição.

A conversa era sobre fingir ser outra pessoa apenas para se encaixar em um lugar ou se conectar à alguém específico. Das quatro pessoas sentadas ao redor das cartas de baralho, duas disseram que nunca fariam isso. Como se o sentimento de pertencer, para elas, não fosse um problema. Fui forçado a pensar em como todos sentimos coisas que não percebemos, e como elas controlam nossas atitudes de partes do nosso ser que sequer sabemos da existência.

Duas pessoas, que algum dia sentaram ao redor de uma mesa com seus pais, família ou amigos, e nunca viram problema em ser cem por cento quem são, provavelmente conseguiram se abster do mundo enquanto uma sociedade. Um marco para o desenvolvimento humano, que instintivamente vem tentando se superar e conseguir uma aprovação com isso diariamente.

Sentir.

Ver outra pessoa contar as suas mentiras é agonizante.

Como eu disse, isso resume grande parte de uma pessoa. Nos retiramos de posições que são desconfortáveis para nós, por sentir algo ruim. Mesmo que aquilo em algum ponto seja positivo. Sentir o mau em algo nos faz correr para longe, principalmente quando enfrentamos aquele que há em nós. Como o medo de não pertencer.

Pensando em tudo isso entendi finalmente o ponto daquela conversa.

O círculo de pessoas ao redor das cartas um dia foi maior.

Fingir ser outra pessoa para pertencer à algo ou alguém, é o que sentiam que tinham que fazer antes do círculo ter apenas quatro pessoas.

Não era sobre sentir, apenas. Eu também precisava pensar nas consequências daquilo. Em como o caminho para a depressão era cheio de bifurcações, ligando situações diferentes com pessoas de todos os lados. Repletas de sentimentos. Raiva, amor, tristeza, euforia. Além de todas as variáveis. Cada pessoa em uma bifurcação do mesmo caminho, se alimentando dos sentimentos que encontravam no percurso.

Sentir.

Se você não souber de tudo o que a pessoa come, como poderia saber tudo o que ela sente.

Olhei para trás e vi o buraco que chamamos de Depressão da última vez. Onde um dia desisti de sentir, reconheci alguns rostos, que permaneciam os mesmos desde que os vi pela última vez. Pessoas que conheci no caminho. Pessoas que tentei mostrar, sempre que pude, que estávamos na direção errada.

Sentir.

A culpa é pior quando o dedo que aponta é o seu.

Eu as deixei para trás. Aprendi a manter uma distância segura de pessoas que não sabiam o que estavam fazendo, e quando a gente sente, sabe tão pouco. Como uma questão em um teste para a qual não sabemos a resposta, embora tentemos descobrir, a saída é seguir sem isso e tirar o melhor que pudermos do resto do teste.

Sabia que aquelas pessoas que estavam aos poucos desaparecendo para mim um dia sentiram algo que não compreendiam. Mesmo que eu tentasse mostrar, aquilo só as deixaria mais confusas. Elas não conseguiam seguir sem saber a resposta que vem de dentro.

E eu não podia ficar.

O mesmo aconteceu com as pessoas que não estavam mais ao redor das cartas.

Sentir.

Saber dos sentimentos que movem os outros nos faz conhecer mais dos nossos.

As almas que um dia nos trouxeram para a superfície e nos deram a chance de voltar ao ponto de partida, emergiram mais uma vez. Elas traziam em seus braços todas as pessoas que percorreram aquela estrada, sem sequer enxergar para onde iam.

Depois de salvas, as pessoas que deixei para trás voltaram a andar, agora na direção oposta à Depressão. Mais uma vez como se sequer enxergassem o caminho. Apenas andando. Sequer perceberam que foram salvas pelas mesmas pessoas que um dia as abandonaram, ou que foram abandonadas.

Sentir.

Isso resume grande parte do que é ser humano, e no fim, quando chegamos ao fundo do buraco, ter sentido alguma coisa se torna nossa única chance de recomeço.

As pessoas que deixamos para trás são partes de nossas jornadas, das idas e vindas à Depressão. São os rostos delas que nos lembram que devemos sentir cada oportunidade que tivermos. Sem isso, nunca sentiríamos os extremos da vida e voltaríamos para contar a história.

E todos, em algum momento, se tornam apenas parte da jornada.

Poesias

Henrique Satt Visualizar tudo →

21 anos de idade, apaixonado por literatura, fotografia e pela natureza.

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